Foto: J. Nobre.

Intimidade, palavra tão complexa e desejada.
Com certeza você já deve ter dito alguma vez, ou ouvido alguém dizer; Temos intimidade!
Mas, o que realmente isso significa?
Estive pensando muito esta semana, sobre o que é ter intimidade.
Durante toda a minha vida eu pensei ter conhecido e ter tido intimidade com todas as pessoas com as quais convivi, também pensei que elas tivessem me conhecido a fundo.
Quando era pequena, gostava de falar as minhas experiências e os meus sonhos para as pessoas ao meu redor, mas sempre era vetada de alguma forma, as vezes até muito dura. E isso parece um imã, que quanto mais você quer falar e não é ouvido, se torna quase uma questão de honra falar, expor.
Passaram muitas pessoas por minha vida, que eu admirei profundamente, ao ponto de torná-las o meu primeiro lugar, com um trabalho árduo de conquistar aquela pessoa tão difícil, inalcançável, para que fosse o meu ouvinte.
Quando somos rejeitados, silenciados, gera-se em nós, sem percebermos, uma revolta, que muitas vezes não passa de um mal entendido, falta de diálogo e de conhecer o outro.
Eu morei durante 13 anos seguidos com a minha avó materna, sempre vivi acautelada, com o que as pessoas iriam pensar ao meu respeito, o principal medo que eu tinha, era que a minha avó pensasse que morava com ela por interesse. Durante todos esses anos, vivi sem nunca saber o quanto ela recebia ou o quanto tinha em sua gaveta, quando ela pedia para que eu pegasse o dinheiro para contar, eu só pegava sem olhar fixamente, entregava e saía. Mas ela sempre perguntava; Porque saiu?
Eu pensava que tivesse intimidade com a minha avó, pelos anos de convivência e por simplesmente morar debaixo do mesmo teto.
Também lembro-me de que quando me faltava algo, nunca tinha coragem de pedir a ela, era um medo que eu sentia, por mais que fosse ela o meu refúgio. E quando ela queria me presentear com algo, eu sempre dizia que não precisava. Sua estratégia era chamar os lojistas em casa, pois não podia andar, e me perguntava; Ficou bom em mim? Respondia-lhe que sim. E à noite ela me chamava e dizia que era para mim.
Minha avó e eu morávamos juntas, mas nunca tivemos intimidade. Difícil para alguém que amou tanto, admitir que nunca houve intimidade.
Em 2013 tomei uma decisão muito difícil, que foi ir embora de casa. Com a distância fomos nos tornando mais parceiras, parece que tínhamos nos conhecido novamente. Aquilo de quase pensar: Nossa! Como você é incrível, parece que te conheço há muito tempo!
Os meses foram se passando e maior era esse grau de interesse mútuo de saber sobre o cotidiano uma da outra. Tudo!

Ficávamos horas ao telefone. Minha mãe sempre dizia; Como vocês ainda tem tanto assunto? Vocês maravam juntas.
Definitivamente, nós precisávamos nos conhecer novamente.
Minha avó era uma pessoa meiga e amiga ao extremo, porém tinha personalidade forte (Creio que tenha herdado isso dela). Tinha suas crenças e convicções, inabaláveis!
Em 2014 ela sofreu um acidente, durante 4 meses sofremos bastante, isso também nos aproximou cada vez mais. Coisas que eu nunca tive coragem de falar a ela, neste momento, falei (não o quanto eu a amava, pois isto dizíamos todos os dias) e para minha surpresa fui ouvida. Era a primeira vez em todos esses anos, que ela me ouvia…simplesmente me ouvia. Isso é ter INTIMIDADE.
Ela me disse que eu estava diferente, que agora sim havia crescido…amadurecido. Talvez sim, em muitos aspectos inevitáveis, mas nos faltava intimidade, para conhecer a verdadeira essência e pensamentos uma da outra.
Morávamos juntas, cozinhavamos juntas, riamos juntas, cantávamos juntas, sonhavamos juntas, etc. Mas, não tínhamos coragem de mostrar o melhor dessa essência, uma para outra.
Felizmente, houve tempo para isso. E Em dezembro de 2014, ela faleceu.

Quantos muitos perderam a intimidade com os seus, ou talvez nunca a tiveram, pois colocaram essas pessoas em um pedestal, como se fossem deuses, inalcançáveis, mas desejados. Querendo ter intimidade, mas sem conhece-las.
Há muitas pessoas infelizes, buscando na sua vaidade o preenchimento de sua vida vazia, de intimidade. Falta de intimidade consigo mesmo, com seus pais, seus irmãos, com o próprio Deus. Lhes falta; Por onde começar?

“Perdão” essa é a palavra que cura e liberta. Liberar o perdão, para a indiferença, para o eu te amo, que talvez nunca tenha ouvido daquele seu super herói (pai), daquele modelo de perfeição (mãe), de que o que acabara de fazer está perfeito, você pode mais, você vai conseguir, eu vou te ajudar…tantas outras coisas que você sentiu falta, até chorou no seu íntimo, com saudades daquilo que nunca teve.
É a hora de liberar perdão, deixar esse mundo padrão, automatizado, tornando superficial as coisas naturais…os sentimentos. E saber que erramos e podemos nos retratar. Reconciliar.
Poder conhecer verdadeiramente, o porquê estamos neste mundo e para onde iremos. conquistar intimidade com aqueles que estão em nossas vidas.

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